As idéias do Banco Mundial e o futuro do Brasil
Boletim Periscópio

 

 

 

O que há de novidade realmente no chamado “Pós-Consenso de Washington” e nas agendas recicladas do Banco Mundial?

 

Todo leitor atento perceberá que o Bird (Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento) que compõe o Banco Mundial está sendo citado com freqüência em matérias jornalísticas relacionadas à definição das políticas do governo Lula. Na maioria das vezes, o tom da cobertura é positivo indicando que mais uma fonte de financiamento estará aberta para políticas sociais do atual governo. No entanto, as condições presentes nos financiamentos raramente são discutidas.

A Folha de S. Paulo de 25/05/2003 evidenciou que documentos do Ministério da Fazenda e declarações do Ministro Antônio Pallocci reproduziam as teses do Banco Mundial para justificar a atual política macroeconômica do governo. O ministro retrucou que a similaridade seria justificada pelos avanços no pensamento do organismo, por questões de bom senso e em função de consensos básicos de economia. No mês anterior, o mesmo jornal já associava essa relação pela presença de componentes do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (IETS) no Ministério da Fazenda. O jornal informa que o IETS realizou pesquisas financiadas pelo Bird, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de ter recebido cerca de R$ 3,4 milhões por serviços prestados ao governo anterior.    

As idéias do Bird chegaram ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) através do documento “Políticas para um Brasil Justo, Sustentável e Competitivo”. Esse é um resumo de trabalho publicado em inglês, com mesmo título, pelo Banco Mundial em novembro de 2002. O longo documento, originalmente divulgado no site do Banco Mundial, trata desde questões macroeconômicas, passando por questões ambientais e até sobre a reforma do judiciário. No entanto, na sua introdução o tom é moderado: os autores admitem que o Banco não possui conhecimento sobre todas as políticas do Brasil e que a análise seria uma contribuição para o debate.

A influência das idéias do Banco Mundial no Brasil e nos países em desenvolvimento não é uma novidade. Nesta perspectiva, o presente artigo busca compreender qual o papel atual do Banco Mundial, qual a relação entre as idéias da instituição e o atual governo, e quais as possibilidades da implementação de políticas que correspondam à vontade de mudança expressa nas urnas em 2002.


Origem e posições atuais do Banco Mundial

O Bird surgiu, assim como o FMI, no contexto de reconstrução da Europa destruída pela II Guerra. Ao FMI caberia o papel de assegurar a estabilidade econômica global e evitar crises graves do sistema capitalista. Ao Bird coube a reconstrução da Europa e, nos anos subsequentes, dedicou-se ao financiamento e elaboração de políticas de desenvolvimento e ajuda aos países que passaram por desastres naturais, emergências humanitárias e conflitos. Nos últimos anos, o combate à pobreza tem sido seu principal lema. Para implementar as políticas nos países em desenvolvimento, o Banco emite títulos para captar recursos no mercado financeiro.

Como o poder decisório no Bird e no FMI é proporcional à participação dos países com recursos financeiros investidos nas instituições, do total de 183 países-membros são os países desenvolvidos que definem as regras de financiamento. Além disso, como ressalta o economista Joseph E. Stiglitz, questionando a assimetria de poder dentro da instituição, os presidentes do Banco são escolhidos a portas fechadas e não é considerado um requisito para essa seleção ser um especialista em questões do mundo em desenvolvimento. O economista ressalta ainda que além dos interesses dos países ricos, os interesses comerciais e financeiros desses países também são defendidos por essas agências (A globalização e seus malefícios, Futura, 2002).

No artigo “As agências internacionais e as políticas de saúde nos anos 90: um panorama geral da oferta de idéias, o pesquisador do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ruben Araújo de Mattos, ressalta que embora a “oferta de idéias” seja bem antiga, a atuação das agências teria se modificado no tempo. Nos anos 70, as políticas emanadas dessas agências surgiam de debates amplos entre os representantes dos diversos países membros; nos anos 80 as políticas passaram a ser especialmente voltadas para os países em desenvolvimento e a elaboração das propostas passaram ser elaboradas num âmbito restrito das agências internacionais e sob influência dos países mais ricos. A disseminação desses “consensos” restritos era garantida pelo estabelecimento de condições para a contratação de empréstimos (Ciênc. saúde coletiva v.6, nº2, São Paulo, 2001).

O estreitamento do espaço para debate das questões sobre o desenvolvimento coincide com a aproximação entre o Banco Mundial e o FMI descrita por Joseph Stiglitz. No início dos anos 80 com a posse do presidente do Banco Mundial, Willian Clausen, e da economista chefe, Ann Krueger, as agências se distanciam do seu diagnóstico original: o reconhecimento de que os mercados, em geral, não funcionam bem, havendo a necessidade de ação coletiva em nível global para se buscar a estabilidade econômica. Na perspectiva da nova administração, os governos passam a ser vistos como problemas e o livre mercado passa a ser considerado a solução dos problemas dos países em desenvolvimento. Segundo Stiglitz, nos anos 80 e 90, o Bird e o FMI tornam-se as instituições missionárias da ideologia do livre mercado, sendo que os empréstimos de reajuste estrutural e aqueles destinados a projetos eram concedidos aos países que aceitavam as suas condições (A globalização e seus malefícios, Futura, 2002).

É interessante notar que a “oferta de idéias”, no final dos anos noventa, passou a assumir importância igual, e até maior do que o financiamento. A afirmação do presidente do Banco Mundial James Wolfensohn, em pronunciamento de 1997, ilustra essa mudança: “A origem real da eficácia no setor (saúde) são, portanto, as reformas resultantes do aconselhamento político que acompanha os empréstimos, e não dos empréstimos em si”. Ruben Araújo ressalta que, principalmente nos anos 90, o consenso estabelecido entre as agências financiadoras em torno de algumas políticas permitiu regular os destinos do fluxo de recursos intermediados por essas agências; ofereceu aos mercados privados avaliações sobre os desempenhos dos governos que buscam recursos no mercado; e assegurou um patamar mais seguro para a decisão de alocação de recursos (Ciênc. saúde coletiva, v.6, nº2, São Paulo, 2001).

 

O Bird e o Brasil

A equipe de 75 funcionários do Banco Mundial no Brasil, liderados pelo diretor para o Brasil, Vinod Thomas, está envolvida em dezenas de projetos envolvendo os mais diversos setores, como a política social, infra-estrutura e meio-ambiente. Thomas declarou, em entrevista para o Estado de S.Paulo de 4/05/2003, que a instituição está encantada com a combinação de responsabilidade macroeconômica e urgência social defendida pelo atual governo. Nessa perspectiva, o Brasil seria um exemplo da execução do pós-Consenso de Washington: “que a política social seja equiparada, e até unificada, à política econômica, mas nunca subordinada”.

Thomas esclarece, no entanto, que nesses primeiros meses de governo a liberação de recursos para investimentos estão limitados pelo ajuste fiscal - nesse tipo de financiamento o governo precisaria entrar com uma contrapartida de 60% do total investido - e pelo fato do país estar pagando a dívida de US$ 8,5 bilhões contratada no passado. No médio prazo, Thomas acredita que o Brasil poderá enfrentar simultaneamente seus dois problemas fundamentais, o endividamento externo e a má distribuição de renda. Por enquanto, o Banco tem financiado o ajuste fiscal de 4,25% do PIB adotado pelo governo.

O primeiro empréstimo liberado em fevereiro de 2003 foi de US$ 505 milhões para “ajuste do setor de desenvolvimento humano”, ou seja, os recursos se destinariam a apoiar “programas de reformas do governo para a redução da fome e da pobreza”. Estes foram os termos utilizados no site da Agência Brasil e reproduzidos em vários jornais. No entanto, como nos informa a Nota Técnica nr. 75 do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a Mensagem do Senado Federal – MSF nr. 54, de 24 de fevereiro de 2003, enviada pelo Executivo ao Senado para autorizar a operação de crédito – classificou de outra maneira a operação: “primeiro Empréstimo Programático de Ajuste do Setor Financeiro (PSAL)”. Entrando nessa categoria, a operação não demandaria a contrapartida e passaria a compor as reservas externas do país, podendo, dessa forma, ser utilizada para saldar compromissos financeiros externos.

Um segundo empréstimo de US$ 404 milhões foi pedido pela MSF nr. 137 em 26 de julho de 2003. Esse novo empréstimo é apresentado como sendo resultado do reconhecimento da implementação da reforma fiscal e tendo a finalidade de “compor as reservas externas do País”. Na Carta dirigida ao Banco Mundial para pleitear o recurso, o Ministro da Fazenda, Antônio Palocci, reafirma que o seu principal objetivo com a política fiscal é tornar a economia mais resistente a choques e admite que a meta de superávit primário de 4,25% do PIB poderia ser corrigida “se circunstâncias inesperadas” exigissem. Em carta de 9 de maio de 2003, o Bird traça um cenário mais pessimista, considerando que essas circunstâncias não seriam tão inesperadas assim. A meta de superávit teria grandes chances de ser aumentada porque “apesar dos consideráveis ajustes nas contas externas e fiscais nos anos recentes, reduzir as vulnerabilidades levará tempo. Riscos macroeconômicos substanciais permanecerão por algum tempo”, afirma o relatório do Bird.

Considerando o conjunto de projetos que estão em fase de elaboração e a capacidade de financiamento do Bird para o Brasil, talvez o total desses dois empréstimos não representem um valor significativo. No entanto, eles dão as pistas de que ajuste fiscal é, para o Banco Mundial, tão, ou mais importante que o combate à pobreza no Brasil. Confirmando a equivalência dos dois objetivos, o documento Estratégia de Assistência ao País, divulgado em 30 de maio de 2003, resume as estratégias para este mandato afirmando que do total de desembolsos previstos, US$ 8 bilhões, metade será para os empréstimos de ajuste, destinados a saldar compromissos externos, e metade se destinará aos investimentos.

O documento Políticas para um Brasil Justo, Sustentável e Competitivo é bem claro na definição da principal prioridade: restaurar e manter a confiança em relação à economia. É interessante ressaltar que o documento não relaciona as causas das vulnerabilidades e a elevada dívida interna e externa com o modelo de desenvolvimento adotado por Fernando Henrique, preferindo associá-las a questões conjunturais como as incertezas geradas com as eleições. O documento ressalta que o nervosismo dos credores da dívida externa no momento pós-eleitoral teria aumentado os custos da dívida, defendendo que, mudanças estruturais, como a reforma da Previdência e Tributária, seriam necessárias para dar uma sinalização imediata para esses mercados, promovendo assim a “credibilidade fiscal”. A principal dimensão da reforma na seguridade social, nesta perspectiva, seria fiscal.

O costumeiro e velho argumento liberal das vantagens comparativas dos recursos naturais é utilizado na projeção de um crescimento sustentável. Aqui também o equilíbrio das finanças e a restrição da ação do Estado em investimento e manutenção da infra-estrutura são defendidas. É feita ainda, a crítica à adoção de política industrial e de uma política ativa no financiamento das exportações: a política de substituição de importação é considerada ineficiente a longo prazo; o equilíbrio fiscal pode ser ameaçado se ficar subordinado aos gastos com uma política industrial; as políticas corretas de exportação devem buscar ganhos de produtividade, não devendo representar custos fiscais em assistência a setores específicos (pag. 66-68).

O crescimento sustentado da economia será, portanto, obtido pelo aumento da produtividade, devendo o Estado apenas criar o ambiente necessário para o investimento do mercado. Outras formas de crescimento poderiam aumentar a vulnerabilidade do país. Nesse contexto, mesmo as políticas de geração de emprego deveriam ser projetadas para o ambiente de restrição fiscal. Todas as propostas estão relacionadas às mudanças nas formas de regulação do trabalho formal, ou seja, desoneração da folha de pagamento e restrição de diretos dos trabalhadores. É interessante notar que, enquanto inúmeros pesquisadores brasileiros ressaltam os altos níveis de desemprego, herdados do governo anterior e com uma trajetória ascendente em 2003, e os seus impactos na geração de um novo contingente de pobres no país, o documento trata apenas marginalmente do tema de combate ao desemprego, parecendo, desse modo, confiar que o crescimento pelo mercado dará conta da geração de empregos.

A abertura comercial também contribuiria para esse crescimento. Para isso, o país deveria baixar as barreiras comerciais através de acordos bilaterais, regionais e multilaterais, removendo as diversas restrições para aumentar investimentos diretos do exterior: restrições para trabalhadores estrangeiros, transferência de tecnologia, transações em moedas estrangeiras e propriedade de estrangeiros.

A justiça social seria alcançada pela eliminação dos subsídios à previdência do setor público; por reformas que aumentem a credibilidade na polícia e no judiciário; os serviços públicos, empregos públicos, a infra-estrutura e assistência social deveriam cumprir suas metas com transparência; e por fim, para reduzir as desigualdades, a qualidade e a oferta do ensino médio deveriam ser ampliadas. Nota-se que no item superação da desigualdade de renda, o Banco tem a preocupação de ressaltar as atividades “básicas” do Estado - segurança, educação e serviços básicos – e defender um remanejamento de recursos já existentes, desconsiderando qualquer ação mais direta do Estado na geração de emprego ou na superação das desigualdades regionais. Outra medida para o combate à pobreza, que ocupa centralidade no documento, é o aumento do controle da aplicação de recursos na área social: diminuição de programas sociais, gestão financeira centralizada e um fortalecimento da política de focalização.

Certamente uma análise mais detida do documento divulgado no site do Banco Mundial, de quase cem páginas, permitirá o acesso a “propostas” bastante polêmicas que não constam no resumo entregue ao Conselho, como, por exemplo, o fim do financiamento público para o ensino superior e a eliminação das fontes de recursos da Caixa Econômica Federal, através do emprego dos recursos do FGTS para aplicação no mercado de capitais.    

 

O que há de novo no Pós-Consenso de Washington?

Inicialmente, é fundamental ressaltar que o novo livro do chamado pai do Consenso de Washington, John Willianson, After the Washington ConsensusRestarting Growth and Reform in Latin America, não defende uma inversão dos princípios que orientaram as reformas liberais dos anos 90. O que o livro tenta responder é porque o crescimento econômico, a estabilidade e os índices sociais da América Latina tiveram resultados tão decepcionantes. A resposta é que as reformas implementadas na região ou foram incompletas, ou inconsistentes ou ocorreram em uma ordem não satisfatória. Como exemplo o autor destaca que a reforma do mercado de trabalho foi negligenciada em muitos países, fazendo aumentar o trabalho informal; a atenção quanto à reforma fiscal foi incompleta, pois os países onde os déficits foram eliminados não aproveitaram as oportunidades para alcançar superávits que os preparassem para os tempos ruins; o fortalecimento das instituições, como a adoção de normas para o banco central independente, descentralização responsável em termos fiscais, modernização na máquina de fiscalização de impostos, uma ambiciosa reforma judicial nos processos, e reforma educacional, teriam sido negligenciados na maioria dos países, com exceção do Chile. Desse modo, a nova agenda não é uma denúncia da agenda anterior, ao contrário, a nova agenda deve ser uma conclusão daquelas.

Ao mesmo tempo, o autor reconhece que as políticas defendidas na década anterior não preveniram os governos para as crises que eclodiram com conseqüências devastadoras. A nova agenda busca, portanto, criar mecanismos para diminuir as vulnerabilidades dos países da região: 1) Conseguir superávits nos tempos de prosperidade como também reduzir os déficits a níveis prudentes; 2) Assegurar que as unidades subnacionais tenham um controle orçamentário estrito e evitar que possam atrapalhar o ajuste fiscal feito pelo governo central; 3) Acumular reservas e construir um fundo de estabilização quando as exportações estiverem em alta; 4) Adotar um regime de câmbio suficientemente flexível para assegurar competitividade externa, evitando que a entrada de capitais seja excessiva; 5) Combinar política cambial flexível com uma política monetária focada em baixos níveis de inflação; 6) Reforçar a fiscalização no sistema bancário e minimizar os riscos de colapsos bancários. 7) Aumentar a poupança doméstica para que o investimento possa crescer sem uma grande dependência da importação de capitais e para evitar medidas de controle da entrada de capitais.

O economista descarta a adoção de políticas industriais como uma saída para as crises. Segundo o autor, uma reforma institucional que seria vista como incorreta é a introdução de uma política industrial, ou seja, um programa que requeira uma agência governamental capaz de conceder incentivos às empresas que sejam consideradas especialmente importantes para a economia nacional. O autor não aceita o argumento de que essas políticas teriam sido o ingrediente chave para o sucesso do leste asiático, pois mesmo que alguns países a adotaram, Hong Kong foi uma exceção. Estas opções fariam reviver a intervenção do Estado na economia e não permitiriam o crescimento sustentável. Embora ressaltando que governos devem ficar fora do processo de tomada de decisão nos negócios, o autor defende que o Estado poderia, além de criar um bom ambiente para os negócios, buscar a criação de um sistema nacional de inovação tecnológica para difusão da informação tecnológica e pesquisa, ou ainda incentivar a formação de agrupamentos industriais. Williamson adverte, no entanto, que as reformas orientadas para o mercado levam tempo para surtir efeito e que os líderes devem ter paciência para esperar isso ocorrer.

O autor parece defender uma política anticíclica condicionada quando propõe que poderia haver alguma instituição regional que regulasse uma política anticíclica. Um governo que quisesse aumentar os gastos governamentais deveria demonstrar para a organização de monitoramento regional que seus planos não prejudicam a disciplina fiscal. Se houver necessidade convincente de gastos públicos ela deve ser financiada, se necessário, por aumentos nos impostos.

Outra razão para o desapontamento seria porque os objetivos das reformas no Consenso original foram excessivamente estreitos. Políticas se concentraram no crescimento acelerado, não no crescimento com equidade. Houve pouca preocupação com a distribuição de renda ou com a agenda social. Numa região que apresente os níveis mais concentrados de renda do mundo, como a América Latina, é fundamental buscar a redistribuição da renda. A negação de oportunidades aos pobres e o desperdício de talentos também é a causa do pouco crescimento.

Segundo o economista, um aprendizado com a década de noventa foi que apenas o crescimento econômico não leva a diminuição da pobreza e da desigualdade.

É interessante notar a ênfase dada por Williamson às políticas compensatórias, talvez preocupado com os constantes e crescentes distúrbios sociais que vem ocorrendo na América Latina, que no médio prazo podem inviabilizar eleitoralmente as reformas, a preocupação do economista é “tornar o pobre menos pobre” e diminuir os impactos brutais das reformas através de uma agenda social. Não obstante, essa preocupação com a “agenda social” deve ser integrada às medidas de ajuste fiscal e de prevenção de crises citadas no parágrafo anterior. O autor não explica como num ambiente de restrição orçamentária constante seria possível desenvolver políticas sociais consistentes.

Essa breve análise permite avaliar que o paradigma neoliberal em crise e submetido a críticas à esquerda e à direita busca uma revisão. Em primeiro lugar, busca assimilar críticas preservando os princípios básicos do seu campo analítico, a crença no mercado como a instância de eficiência é mantida, apesar da crítica à vulnerabilidade dos Estados aos capitais especulativos. Em segundo lugar, busca ampliar os campos de interlocução para renovar sua legitimidade pública. A proposta de políticas anticíclicas e de sistemas nacionais de inovação parecem opções nesse sentido. E, por fim, o paradigma em crise busca incorporar problemas até então marginais no seu conteúdo original. A agenda social parece um bom exemplo desse esforço. Não apenas Há semelhança entre as agendas do Banco Mundial e do Consenso de Washington renovado, como há também otimismo infundado nos analistas que apostaram em uma revisão de posições na nova agenda.

A implementação dessa nova agenda pode desvendar se as medidas como resposta às críticas dos conservadores – como aquela feita pelo Congresso americano que denunciou que o Fundo havia previsto apenas 11% das 134 crises na década de 90 – terão o mesmo peso que aquelas destinadas ao combate da desigualdade social e à pobreza na região. Não poderíamos utilizar o termo “Novo Consenso de Washington”, mas sim como o próprio autor destacou seriam “reformas nas reformas”. No entanto, ao admitir algumas falhas e limites, mesmo que parcialmente, o autor abre a possibilidade de discussão do paradigma que se colocava no momento anterior como intocável. Williamson, não parece, no entanto disposto a abrir mão da ortodoxia. Comentando o novo livro, afirma que “não se trata mais de ser pró ou contra o Consenso de Washington, mas de avançar nas reformas necessárias” (entrevista à Folha de S. Paulo, 04/05/2003).

 

Transparência e controle

Para responder a questão de como as idéias do Banco Mundial influenciam os rumos do país, seria interessante começar por responder de uma forma consistente ao questionamento feito pela assessora política da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, Flávia Barros: “Quais as chances de efetivação do Plano Plurianual 2004-2007, que pretende iniciar um novo projeto de desenvolvimento para o país com participação popular, tendo em vista o acordo com o FMI e outros inúmeros convênios e acordos multilaterais que acompanham os financiamentos?” (em artigo de Antonio Biondi, Carta Maior, 09/06/2003).

Um passo inicial para realizar o objetivo de alcançar maior transparência nessas questões foi dado no dia 22/05/2003 com a criação da frente parlamentar multipartidária, formada por 40 deputados e senadores, com o objetivo de acompanhar as condições e os critérios dos empréstimos contratados com o FMI, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento. A frente parlamentar foi criada por iniciativa da Rede Brasil, organização que reúne 56 organizações não governamentais. Na pesquisa inicial da Rede já foi possível detectar a falta de transparência que envolve a questão: não foi possível saber o período para o pagamento dos empréstimos contratados pelo Brasil com essas instituições que totalizam US$75 bilhões. Considerando que os Empréstimos Programáticos para Ajuste do Setor Financeiro (PSAL) não precisam ser previstos pelo PPA, essa iniciativa pode abrir um primeiro campo para ampliar as possibilidades de controle sobre o endividamento externo brasileiro.

 

 

Periscópio: boletim eletrônico mensal da Fundação Perseu Abramo - Edição nº28 - agosto de 2003