Loucura histórica toma conta dos EUA
John Le Carré
26/01/03 - Os EUA entraram em um de seus períodos de loucura
histórica, mas este é o pior da qual consigo me recordar -pior do que o macarthismo, pior do que a baía dos Porcos e, a longo prazo, potencialmente mais desastroso do que a
Guerra do Vietnã.
A reação a 11 de setembro supera qualquer coisa que Osama poderia ter esperado, mesmo em seus sonhos mais
maquiavélicos. Como nos tempos de McCarthy, os
direitos e as liberdades dos cidadãos que fizeram dos EUA alvo da inveja do mundo
estão sendo sistematicamente corroídos.
A perseguição movida contra estrangeiros residentes
nos EUA continua, sem trégua. Homens "não-permanentes" de origem
norte-coreana ou do Oriente Médio desaparecem, sendo mantidos detidos em
segredo, com base em acusações secretas e em decisões secretas de juízes.
Palestinos residentes nos EUA, que, antes de 11 de setembro, eram considerados
apátridas e, portanto, não podiam ser deportados, estão sendo entregues a
Israel para serem "reassentados" na faixa de Gaza e na Cisjordânia,
lugares onde muitos deles nunca antes colocaram os pés.
Será que nós, aqui no Reino Unido, estamos jogando o
mesmo jogo? Imagino que sim. Dentro de 30 anos seremos autorizados a saber.
A combinação de mídia americana
obediente e interesses das grandes empresas está mais uma vez fazendo com que uma discussão que
deveria estar sendo travada em praça pública se restrinja às colunas mais
"nobres" da imprensa da Costa Leste americana: procure lá pela página
27 do primeiro caderno, se for capaz de encontrar e compreendê-la.
Nenhum governo americano até hoje manteve seus planos
e propósitos em segredo tão grande. Se os serviços de inteligência não souberem
de nada, então será o segredo mais bem guardado de todos. Vale lembrar que são
essas as mesmas organizações que nos brindaram com a maior falha da história
dos serviços de informações: o 11 de setembro.
A guerra iminente foi planejada anos antes de Osama bin Laden
dar seu golpe, mas foi Osama quem a tornou possível.
Sem Osama, a junta Bush
ainda estaria tentando explicar problemas complexos quanto o de como conseguiu
ser eleita, em primeiro lugar; a Enron, o
favorecimento desavergonhado que brinda àqueles que já são ricos demais e o
descaso inconsequente com que trata os pobres do
mundo, o ambientalismo e toda uma série de tratados
internacionais unilateralmente rescindidos por ela.
É possível que também estivesse tendo de nos explicar
por que apóia o descaso com que Israel continua a tratar resoluções da ONU que
lhe dizem respeito.
Mas Osama, de modo muito
conveniente, varreu tudo isso para debaixo do tapete. Agora os seguidores de
Bush estão na crista da onda. Segundo nos dizem, 88% dos americanos são
favoráveis à guerra. O orçamento norte-americano da Defesa foi acrescido de
mais US$ 60 bilhões, chegando a cerca de US$ 360
bilhões.
Uma nova e magnífica geração de
armas nucleares americanas se encontra em processo de produção, feita sob medida para responder com força
igual às armas nucleares, químicas e biológicas que estão nas mãos dos
"Estados delinquentes". Podemos todos respirar aliviados.
E os EUA não apenas estão decidindo de maneira
unilateral quem pode ou não pode possuir tais armas. Também reservam para si o
direito unilateral de posicionar suas próprias armas nucleares, sem pensar duas
vezes, onde e quando consideram que seus interesses, amigos ou aliados
estiverem sendo ameaçados.
Exatamente quem serão esses amigos e aliados nos
próximos anos será, como sempre na política, um enigma. Você faz bons amigos e
aliados, você os arma até os dentes. Um dia eles deixam de ser seus amigos e
aliados. Você os derruba com uma bomba nuclear.
Vale a pena lembrar por quantas longas horas e quão
seriamente o gabinete americano analisou a opção de usar uma arma nuclear
contra o Afeganistão, na esteira de 11 de setembro.
Felizmente para todos nós, mas especialmente para os
afegãos, cuja cumplicidade com o 11 de setembro foi muito menor do que a dos
paquistaneses, os EUA se contentaram em usar bombas "convencionais"
de 25 mil toneladas, que, ao que consta, causam tantos
danos quanto uma arma nuclear pequena, de qualquer maneira. Mas da próxima vez
será para valer.
Exatamente que guerra 88% dos americanos pensam estar
apoiando está bem menos claro. Uma guerra por quanto tempo? A que custo em
termos de vidas americanas? A que custo para o bolso do contribuinte americano?
A que custo -pois a maioria desses 88% de americanos é feita de pessoas
inteiramente decentes e humanas- em termos de vidas iraquianas?
Hoje isso deve ser um segredo de Estado, mas a
operação Tempestade no Deserto custou ao Iraque pelo menos duas vezes o número de vidas perdidas pelos EUA perderam em toda a
Guerra do Vietnã.
Como Bush e sua junta conseguiram desviar a ira da
América de Osama bin Laden para Saddam Hussein é um dos grandes truques mágicos
de relações públicas da história. Mas conseguiram. Uma sondagem de opinião
recente mostrou que, hoje, 1 em cada 2 americanos acredita que foi Saddam o
responsável pelo ataque ao World Trade
Center.
Mas o público americano não está apenas sendo enganado.
Está sendo ameaçado, intimidado, amedrontado e mantido
num estado permanente de ignorância e medo, com a consequente
dependência de suas lideranças. Se tudo sair como querem Bush e seus colegas
conspiradores, a neurose cuidadosamente orquestrada deve conduzi-los à vitória
sem surpresas na próxima eleição.
Quem não está do lado de Bush está contra ele. Pior
ainda -veja seu discurso de 3 de janeiro-, está do lado do inimigo. É estranho,
porque eu, por exemplo, estou inteiramente contra Bush, mas adoraria assistir à
queda de Saddam -apenas não nos termos de Bush e pelos métodos dele. E tampouco
sob uma bandeira de hipocrisia tão desavergonhada.
O colonialismo americano à velha
moda está prestes a abrir suas
asas de chumbo sobre todos nós. Mais "Americanos Tranquilos"
[referência a "The Quiet American, livro de Graham Greene] estão se
infiltrando em cidades insuspeitas do que no auge da Guerra Fria.
O discurso religioso farisaico que vai enviar as
tropas americanas à guerra é talvez o aspecto mais nauseante dessa surreal
guerra que está por vir. Bush possui o monopólio sobre as revelações de Deus. E
Deus tem opiniões políticas muito específicas.
Deus escolheu a América para salvar o mundo de
qualquer maneira que agradar à América.
Deus escolheu Israel para ser o foco da política
norte-americana para o Oriente Médio, e qualquer pessoa que queira contestar
essa idéia é: a) anti-semita; b) antiamericana; c)
favorável ao inimigo; e d) terrorista.
Deus também tem algumas conexões bem assustadoras. Na
América, onde todos os homens são iguais a Seus olhos, mesmo que não o sejam
aos olhos uns dos outros, a família Bush inclui um presidente, um
ex-presidente, um ex-diretor da CIA, o governador da Flórida e o ex-governador
do Texas. Bush pai tem algumas boas guerras a seu favor em sua folha de
serviços, além de uma reputação merecida por despejar a ira da América sobre
Estados clientes desobedientes. Uma guerrinha que ele
lançou pessoalmente, à mão, foi contra seu antigo colega da CIA, o panamenho
Manuel Noriega, que lhe tinha prestado bons serviços
durante a Guerra Fria, mas, quando esta terminou, acabou por querer ultrapassar
seus limites devidos. Não dá para o poder se tornar muito mais nu e cru do que
isso, e os americanos estão cientes disso.
Quer algumas dicas?
George W. Bush. 1978-84: alto executivo da Arbusto Energy/ Bush Exploration, empresa petrolífera. 1986-1990: executivo
sênior da companhia petrolífera Harken.
Dick Cheney. 1995-2000:
executivo-chefe da companhia petrolífera Halliburton.
Condoleezza Rice. 1991-2000: executiva
sênior da companhia petrolífera Chevron, que batizou
um petroleiro com o nome dela.
E assim por diante.
Mas nenhuma dessas associações casuais afeta a
integridade da obra de Deus. Estamos falando de valores honestos. E sabemos
onde seus filhos estudam.
Em 1993, quando o ex-presidente George Bush estava
fazendo uma visita social ao sempre democrático reino do Kuait para receber
seus agradecimentos por tê-lo libertado, alguém tentou matá-lo. A CIA acreditou
que o "alguém" fosse Saddam Hussein. Isso explica o grito de Bush
júnior: "Aquele homem tentou matar meu pai". Mas não é nada pessoal
-é guerra. Ainda é necessária. Ainda é o desígnio de Deus. Ainda se trata de
levar liberdade e democracia ao povo iraquiano pobre e oprimido.
Para ser membro aceitável da equipe de Bush, parece
que também é preciso acreditar no Bem Absoluto e no Mal Absoluto, e Bush, com
muita ajuda de seus amigos, familiares e Deus, está lá para nos dizer qual é
qual. Acho que talvez eu seja do Mal por ter escrito este texto, terei de
checar.
O que Bush se recusa a nos dizer é a verdade sobre o
porquê de estarmos indo à guerra. O que está em jogo não é um tal de "eixo
do mal", mas petróleo, dinheiro e vidas humanas. O azar de Saddam é que
ele está sentado em cima do segundo maior campo de petróleo do mundo. O azar do
vizinho Irã é possuir os maiores depósitos mundiais de gás natural. Bush quer
os dois, e quem ajudá-lo a consegui-los vai receber uma fatia do bolo. Quem não
ajudar não ganhará nada.
Se Saddam não tivesse o petróleo, ele poderia
torturar e matar seus próprios cidadãos à vontade. Outros líderes o fazem
diariamente -pense na Arábia Saudita, no Paquistão, na Turquia, na Síria, no
Egito-, mas esses são nossos amigos e aliados.
Na realidade, desconfio que Bagdá não ofereça nenhum
perigo real e imediato a seus vizinhos, e nenhum mesmo aos EUA ou ao Reino
Unido. As armas de destruição em massa de Saddam Hussein, se é que ele ainda as
tem, serão café pequeno comparadas às coisas que
Israel ou os EUA poderiam atirar contra ele com aviso prévio de apenas cinco
minutos. O que está em jogo não é uma ameaça militar ou terrorista iminente,
mas o imperativo econômico do crescimento dos EUA.
O que está em jogo é a necessidade dos EUA de
demonstrar sua hegemonia militar a todos nós -à Europa, à Rússia, à China e até
mesmo à pobre e louca Coréia do Norte, sem falar no Oriente Médio, para mostrar
quem é que manda na América em casa e quem será mandado pela América fora de
suas fronteiras.
A interpretação mais generosa que pode ser feita da parte
que Tony Blair desempenha em tudo isto é que ele
achou que, cavalgando o tigre, pudesse direcioná-lo. Não conseguiu. Em lugar
disso, conferiu a ele uma legitimidade falsa e uma voz macia. Hoje, temo que o
mesmo tigre o tenha encurralado num canto do qual ele não consegue mais sair.
Ironicamente, o próprio George W. pode estar se sentindo um pouco assim,
também.
No Reino Unido unipartidário, Blair, com uma participação fraquíssima
dos eleitores, foi eleito líder supremo por cerca de um quarto do
eleitorado. Se a apatia pública continuar igual e os partidos de oposição
tiverem resultados igualmente lamentáveis na próxima eleição, Blair ou seu sucessor poderão alcançar um poder igualmente
absoluto, com uma porcentagem de votos ainda menor. É totalmente risível que,
num momento em que Blair se fez encurralar num canto
do ringue, nenhum dos líderes da oposição britânica consiga levantar um dedo
contra ele. Mas essa é a tragédia do Reino Unido, assim como é da América: à
medida que nossos governos mentem, distorcem os fatos e vão perdendo sua
credibilidade e à medida que as supostas alternativas parlamentares a eles não
fazem nada, o eleitorado simplesmente dá de ombros e olha para o outro lado. Os
políticos nunca acreditam em quão pouco conseguem nos
enganar.
Assim, o importante no Reino Unido não é qual partido
político formará o governo após a debacle que já se
pode antever, mas quem ocupará o assento do motorista.
A melhor chance de sobrevivência política pessoal de Blair se dará se, na última hora, os protestos mundiais e
uma ONU fortalecida obrigarem Bush a empurrar sua arma de volta para dentro do
coldre, sem dispará-la. Mas o que acontecerá quando o maior caubói do mundo
voltar para a cidade, sobre seu cavalo, sem trazer a cabeça de um tirano para
mostrar aos rapazes?
A pior chance de Blair se
dará se, com ou sem a ONU, Bush nos arrastar para dentro de uma guerra que, se
tivesse havido disposição em negociar energicamente, poderia ter sido evitada;
uma guerra que não foi debatida democraticamente no Reino Unido, não mais do
que o foi na América ou na ONU.
Com isso, Blair terá
ajudado a provocar retaliações imprevisíveis, grande intranquilidade
interna e caos regional no Oriente Médio. Ele terá provocado um retrocesso em
nossas relações com a Europa e o Oriente Médio que poderá ser sentido por
décadas futuras. Bem-vindo ao partido da Política Externa Ética.
Existe uma via intermediária, mas é difícil de ser
seguida: Bush mergulha sem a aprovação da ONU, e Blair
fica na margem do rio. Adeus ao relacionamento especial com os EUA.
O fedor do farisaísmo religioso que se espalha pelo
ar americano lembra o Império Britânico no que ele tinha de pior. O manto de
lorde Curzon cai mal sobre os ombros dos colunistas
de Washington elegantemente conservadores.
Sinto ainda mais asco quando ouço meu
primeiro-ministro aplicar seus sofismas de líder secundarista a essa aventura
abertamente colonialista. Seus temores muito reais quanto ao terror são
compartilhados por todas as pessoas de sã consciência. O que ele não consegue explicar
é como equaciona uma investida mundial contra a Al Qaeda
com um ataque territorial contra o Iraque.
Estaremos nessa guerra, se ela se concretizar, para
garantir a folha de parreira de nosso relacionamento especial com a América,
para agarrar nossa fatia do bolo petrolífero e porque, depois de todos os
namoricos públicos vistos em Washington e Camp David,
Blair não poderá deixar de comparecer ao altar.
"Mas será que vamos vencer, papai?"
"É claro que sim, meu filho. E tudo terá acabado
enquanto você ainda estiver dormindo."
"Por quê?"
"Porque senão os eleitores de Bush vão ficar
muito impacientes e podem decidir não votar nele, afinal."
"Mas será que vai haver gente morta,
papai?"
"Ninguém que você conheça, meu bem. Só gente
estrangeira."
"Vou poder ver na televisão?"
"Só se Bush disser que sim."
"E depois, vai ficar tudo normal outra vez?
Ninguém mais vai fazer nada horrível?"
"Chega, meu filho, durma."
Há uma semana, um amigo americano meu na Califórnia
foi até o supermercado local com um adesivo em seu carro dizendo "a paz
também é patriótica". Quando terminou de fazer compras, o adesivo já tinha
sido arrancado.
Tradução de Clara Allain
Extraído de : Folha de São Paulo