O Tempo Nas
Cidades
Milton Santos
O texto que segue é um esboço de uma
velha ambição que jamais pude realizar (espero poder realizá-la ainda) que é
oferecer um curso de pós-graduação sobre o tempo. Ainda que não seja filósofo,
sou geógrafo, parto da idéia de que a Geografia é uma filosofia das técnicas,
considerando a técnica como a possibilidade de realização da História, de
mudança da História, de visibilidade dessas rupturas.
A Geografia pretende utilizar como um de seus campos
de trabalho ou como uma das geografias possíveis, aquela que se preocupa com a
apreensão do contexto dos atuais e diferentes momentos, o que faz dela, de
alguma maneira, a história de cotidianos sucessivos. O entrosamento entre
técnica e História permite o entendimento do que se passou, do que se passa e
eventualmente do vai se passar, quando as técnicas se tornam um conjunto
unificado e único, movidas por um motor também único, o que permite uma
visibilidade do futuro.
O tempo pode ser encarado das mais diversas maneiras;
eu, como não sou filósofo, repito, apenas vou tomar alguns filósofos como ponto
de partida, como ajuda na minha conversa. Eu lembraria, por exemplo, o que li
em Baillard, quando ele divide o tempo em três tipos: o tempo cósmico, o tempo
histórico e o tempo existencial. O tempo cósmico, da natureza, objetivado,
sujeito ao cálculo matemático; o tempo histórico, objetivado, pois a História o
testemunha, mas no qual há cesuras, em vista de sua profunda carga humana; e o
tempo existencial, tempo íntimo, interiorizado, não externado como extensão,
nem objetivado, é o tempo do mundo da subjetividade e não da objetividade. Mas,
esses tempos todos se comunicam entre eles, na medida em que o tempo é social.
Parafraseando Heidegger, para quem sem o homem não há tempo, é desse tempo do
homem, do tempo social contínuo e descontínuo, que não flui de maneira
uniforme, que temos de tratar. E é por aí que se vê que esses diversos tipos de
tempo convergem e divergem. Convergem na experiência humana e divergem na
análise.
Do tempo matemático, tempo cósmico, tempo do relógio,
ao tempo histórico, vai toda uma evolução que é assinalável ao longo da
História. O relógio que é descoberto num determinado momento da História, é
redescoberto neste século com o taylorismo e depois com o fordismo; um tempo
que é medida do relógio, se não o enchermos dessa substância social. O tempo
individual, tempo vivido, sonhado, vendido e comprado, tempo simbólico, mítico,
tempo das sensações, mas com significação limitada, não é suscetível de
avaliação se não referido a esse tempo histórico, tempo sucessão, tempo social,
o ontem, o hoje, o amanhã. Essas sequências, que nos dão as mudanças que fazem
história, criam as periodizações, isto é, as diferenças de significação.
Nesse momento, eu gostaria de me referir a um
filósofo latino-americano, Sérgio Bagú, que distingue entre o tempo como
seqüência - o transcurso - o tempo como raio de operações - o espaço - e o
tempo como rapidez de mudanças, como riqueza de operações. Aí se vê que o tempo
aparece como sucessão, permitindo uma periodização; depois aparece como raio de
operações, isto é, o tempo que nos é concomitante, que nos é coetâneo, ou que
foi coetâneo de uma outra geração, e essas duas acepções do tempo nos permitem
trabalhar não só o espaço geográfico como um todo, mas a cidade em particular.
Há uma ordem do tempo que é a das periodizações, que nos permite pensar na
existência de gerações urbanas, em cidades que se sucederam ao longo da
História, e que foram construídas segundo diferentes maneiras, diferentes
materiais e também segundo diferentes ideologias.
Na cidade atual, essa idéia de periodização é ainda
presente; é presente nas cidades que encontramos ao longo da História, porque
cada uma delas nasce com características próprias, ligadas às necessidades e
possibilidades da época, e é presente no presente, à medida que o espaço é
formado pelo menos de dois elementos: a materialidade e as relações sociais. A
materialidade, que é uma adição do passado e do presente, porque está presente
diante de nós, mas nos traz o passado através das formas: basta passear por uma
cidade, qualquer que seja, e nos defrontaremos nela, em sua paisagem, com
aspectos que foram criados, que foram estabelecidos em momentos que não estão
mais presentes, que foram presentes no passado, portanto atuais naquele
passado, e com o presente do presente, nos edifícios que acabam de ser
concluídos, esse presente que escapa de nossas mãos. Na realidade, a paisagem é
toda ela passado, porque o presente que escapa de nossas mãos, já é passado
também. Então, a cidade nos traz, através de sua materialidade, que é um dado
fundamental da compreensão do espaço, essa presença dos tempos que se foram e
que permanecem através das formas e objetos que são também representativos de
técnicas. É nesse sentido que eu falei que a técnica é sinônimo de tempo: cada
técnica representa um momento das possibilidades de realização humana e é por
isso que as técnicas têm um papel tão importante na preocupação de
interpretação histórica do espaço.
Ora, essas técnicas que nos trazem as periodizações,
que nos permitem reconstituir como aquele palimpsesto, que é a paisagem, a
acumulação de tempos desiguais, que é a paisagem urbana, como ela chega até
nós, permitem-nos também passar dos tempos justapostos aos tempos superpostos.
Se considerarmos a história do espaço e do tempo ao longo da História, vamos
ver que ela é o passar de momentos que se propuseram justapostos, isto é, em
que cada sociedade que criava o seu tempo através de suas técnicas, através do
seu espaço, através das relações sociais que elaborava, através da linguagem
que conjuntamente criava também, a tempos que não são mais justapostos, tempos
que são superpostos, isto é, aquele momento que o capitalismo entroniza, no
qual há uma tendência à internacionalização de tudo e que vai se realizar
plenamente nos tempos dos quais somos nós contemporâneos, onde há uma
verdadeira mundialização.
Esse momento no qual vivemos, para repetir Chesnaux,
é de uma sociedade sincrônica, integral, na qual o homem vive sob a obsessão do
tempo, sociedade essa que é, ao mesmo tempo, cronofágica. Nessa sociedade
cronofágica, à qual o tempo cede, nós encontraremos a cidade, tal como descrita
por Baillard, no seu Cronópolis: dizia ele que, no seu esplendor, essa cidade
era como um organismo fantasticamente complexo. Transportar a cada dia quinze
milhões de empregados de escritório, manter o serviço de eletricidade, de água,
de televisão, administrar essa nossa população, tudo isso dependia de um só
fator: o tempo! Esse organismo não poderia subsistir senão sincronizando estritamente
cada passo, cada refeição, cada chamada telefônica. Daí, houve necessidade de
descongestionar os horários, segundo a zona da cidade. Os carros tinham placas
de cores diferentes, de acordo com o horário em que podiam circular, e assim o
sistema se generalizou. Só se podia ligar a máquina de lavar, postar uma carta
ou tomar um banho, durante uma faixa determinada de tempo. Um sistema de cartas
coloridas e uma série de quadros publicados a cada dia, assim como programas de
televisão, permitiam a cada pessoa sua localização dentro daquela faixa de
tempo. Caso contrário, os fusíveis saltavam e a recuperação do sistema seria
muito cara. No edifício que, antigamente, era um dos maiores parlamentos do
mundo, isto é, o lugar onde se faziam leis, nesse décor, de estilo gótico
perpendicular, uma espécie de ministério do tempo estava pouco a pouco se
constituindo, em torno de um relógio gigantesco. Os programadores eram, de
fato, os senhores absolutos da cidade. E a totalidade da existência de cada um
era impressa nos boletins expedidos a cada mês pelo Ministério do Tempo.
Num retrato de uma obra orientada para o futuro,
vemos o retrato das cidades em que vivemos. São Paulo que conheci quando jovem
tinha relógios, mas aqueles relógios eram apenas uma mostra da modernidade. São
Paulo ainda não era uma grande cidade, mas imitava os grandes centros para
parecer também uma grande cidade. Nesse entretempo, os relógios desapareceram
de São Paulo, e reapareceram agora, quando São Paulo se torna cronópolis. São Paulo
se torna cronópolis como qualquer outra grande cidade do mundo, ao mesmo tempo
em que as assincronias e as dessincronias se estabelecem. O império do tempo é
muito grande sobre nós, mas é, sobre nós, diferentemente estabelecido. Nós,
homens, não temos o mesmo comando do tempo na cidade; as firmas não o têm,
assim como as intituições também não o têm. Isso quer dizer que, paralelamente
a um tempo que é sucessão, temos um tempo dentro do tempo, um tempo contido no
tempo, um tempo que é comandado, aí sim, pelo espaço.
Nesse momento em que o tempo aparece como havendo
dissolvido o espaço, e algumas pessoas o descreveram assim, a realidade é
exatamente oposta. O espaço impede que o tempo se dissolva e o qualifica de
maneira extremamente diversa para cada ator. Certo que Kant escreveu também que
o espaço aparece como uma estrutura de coordenação desses tempos diversos. O
espaço permite que pessoas, instituições e firmas com temporalidades diversas,
funcionem na mesma cidade, não de modo harmonioso, mas de modo harmônico.
Também atribui a cada indivíduo, a cada classe social, a cada firma, a cada
tipo de firma, a cada instituição, a cada tipo de instituição, formas
particulares de comando e de uso do tempo, formas particulares de comando e de
uso do espaço. Não fosse assim, a cidade não permitiria, como São Paulo
permite, a convivência de pessoas pobres com pessoas ricas, de firmas poderosas
e firmas fracas, de instituições dominantes e de instituições dominadas. Isso é
possível porque há um tempo dentro do tempo, quer dizer, o recorte sequencial
do tempo; nós temos um outro recorte, que é aquele que aparece como espaço.
Essa temporalização, digamos assim, prática, como
Althusser havia sugerido, aparece nos contextos, que é o que a nós geógrafos
interessa estudar, os contextos, a sucessão de contextos, onde o tempo, à
imagem de Einstein, se confunde com o espaço, é espaço. O espaço é tempo, coisa
que somente é possível através desse trabalho de empiria que nos é admissível,
concebendo a técnica como tempo, incluindo entre as técnicas, não apenas as
técnicas da vida material, mas as técnicas da vida social, que vão nos permitir
a interpretação de contextos sucessivos. De tal maneira que o espaço aparece
como coordenador dessas diversas organizações do tempo, o que permite, por
consegüinte, nesse espaço tão diverso, essas temporalidades que coabitam no
mesmo momento histórico.
É esta a pesquisa que eu desejaria realizar, não sei
se poderei fazê-la, estou trazendo para discussão aqui neste seminário de
trabalho, para ver se há viabilidade. De tal maneira que não teríamos apenas,
como Fernand Braudel, nosso mestre, que foi o fundador da escola de História e
Geografia da USP, as noções de tempo longo e de tempo curto. Eu, modestamente,
proporia que ao lado dos tempos curto e longo, falássemos de tempos rápidos e
tempos lentos.
A cidade é o palco de atores os mais diversos:
homens, firmas, instituições, que nela trabalham conjuntamente. Alguns
movimentam-se segundo tempos rápidos, outros, segundo tempos lentos, de tal
maneira que a materialidade que possa parecer como tendo uma única indicação,
na realidade não a tem, porque essa materialidade é atravessada por esses
atores, por essa gente, segundo os tempos, que são lentos ou rápidos. Tempo
rápido é o tempo das firmas, dos indivíduos e das instituições hegemônicas e
tempo lento é o tempo das instituições, das firmas e dos homens hegemonizados.
A economia pobre trabalha nas áreas onde as velocidades são lentas. Quem
necessita de velocidades rápidas é a economia hegemônica, são as firmas
hegemônicas. É para esta classe que tem significação uma avenida como a dos
Bandeirantes, ou estradas como a dos Bandeirantes e a Anhanguera, que são
estradas que sobretudo interessam aos agentes hegemônicos e às pessoas ricas
que usam melhor, do seu ponto de vista, essas estradas. Do aeroporto ao centro
da cidade vai-se muito depressa, criam-se condições materiais para que o tempo
gasto na viagem seja curto. Já entre os bairros vai-se mais devagar, no sentido
de que não há uma materialidade que favoreça o tempo rápido.
Aqui, a materialidade impõe um tempo lento. Isso quer
dizer que os pobres vivem dentro da cidade sob tempos lentos. São
temporalidades concomitantes e convergentes que têm como base o fato de que os
objetos também têm uma temporalidade, os objetos também impõem um tempo aos
homens. A partir do momento em que eu crio objetos, os deposito num lugar e
eles passam a se conformar a esse lugar, a dar, digamos assim, a cara do lugar,
esses objetos impõem à sociedade ritmos, formas temporais do seu uso, das quais
os homens não podem se furtar e que terminam, de alguma maneira, por
dominá-los. Não naquele sentido a que Maffesoli se reportou, quando disse que
os objetos deixaram de ser obedientes e passaram a nos comandar. Os objetos nos
comandam de alguma maneira, mas esse comando dos objetos sobre o tempo
consagra, no meu modo de ver, essa união entre o espaço e o tempo, tal como nós
geógrafos o vemos, mas, evidentemente não o espaço e o tempo dos filósofos tout
court. Era o que eu tinha a dizer, pedindo ajuda e sugestões para o projeto de
pesquisa.
Milton Santos foi professor titular de
Departamento de Geografia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo, falecido em 24 de junho de 2001.
Texto extraído da transcrição da
conferência do autor na mesa-redonda "O tempo na Filosofia e na
História", promovida pelo Grupo de Estudos sobre o Tempo do Instituto de
Estudos Avançados da USP em 29 de maio de 1989. A transcrição completa foi
publicada na Coleção Documentos, série Estudos sobre o Tempo, fascículo 2, em
fevereiro de 2001.