Filosofia como farsa
Robert Kurz
Só na modernidade surgiria uma
"crítica social", uma consciência de crise e transformação da
sociedade; mas tratava-se, na verdade, apenas de dar um contorno intelectual a
uma dinâmica cega liberada pelas injunções da moderna revolução econômica. A
pós-modernidade envolveu tudo o que na história da modernização até hoje foi
tido como teoria com a suspeita de um "propósito totalitário" das
chamadas "grandes narrativas" ou "grandes teorias",
substituindo a teoria crítica pelo jogo intelectual descompromissado
9/7/2000 - Não é de modo algum espontâneo que uma
sociedade reflita "sobre" si própria. Isso só é possível quando uma
sociedade pode comparar-se criticamente com outras sociedades na história e no
presente, mas sobretudo em situações nas quais uma sociedade torna-se questionável
como que de dentro para fora, carregando consigo um antagonismo que, em sua
estrutura e evolução, aponta para além de si mesma.
Isso certamente não vale para todas as sociedades
pré-modernas. Essas sociedades ainda não eram planetárias, não possuíam
consciência histórica nem dispunham da história como uma série de processos de
evolução e formações socioeconômicas. E tampouco estavam em conflito consigo mesmas, com sua própria forma. Uma dinastia podia
suceder a outra, mas a forma social como tal não podia ser posta em dúvida;
para tanto faltavam critérios. Tais sociedades eram capazes de reproduzir-se
por períodos incrivelmente longos (no caso do antigo Egito, por séculos a fio)
sem ruírem a partir de dentro; seu declínio, pois, era condicionado antes de
tudo por causas externas.
A sociedade, sob tais pressupostos, aparecia sempre
como "sociedade em geral", não como forma específica que também
poderia ser totalmente diversa. E mesmo quando teve início relativamente tarde
na Antiguidade a reflexão sobre diversas "formas de governo"
(monarquia, oligarquia, democracia, tirania), tal distinção permaneceu
indiferente aos corpos socioeconômicos da sociedade; ela não se apresentou,
assim, como, por exemplo, uma história evolutiva linear da própria sociedade,
mas como eterno ciclo meramente extrínseco das formas de dominação que surgiam,
sempre umas separadas das outras. O mesmo vale para a idéia do "Estado
ideal" (Platão), que só representava uma figura idealizada da sociedade já
existente, pensada como inexcedível.
O germe do conflito
Contudo essas culturas agrárias pré-modernas não se
esgotaram cegamente em seu "funcionamento"; elas deram à luz uma
reflexão que ultrapassava o seu ser imediato. Mas essa reflexão não fazia
"crítica da sociedade", antes era uma reflexão "imediata sobre
Deus" ou sobre o universo, sobre a posição do homem no cosmos, sobre o
enigma da morte. Era necessariamente, portanto, uma reflexão em forma religiosa
e com conteúdos religiosos.
Tal espécie de pensamento "sobre" si próprio,
embora como pensamento do homem e de sua sociedade não em relação a si mesmo,
mas em relação a Deus e ao cosmos, permaneceu vinculada à estrutura
socioeconômica pressuposta sem crítica. Isso porque, apesar de sua inquestionabilidade, essa estrutura não era
"muda" em sua cega positividade, senão plenamente legitimada pela
reflexão, embora não como objeto próprio, mas como componente secundário da
ordem divina.
Reflexão religiosa, estudo da natureza e relações
socioeconômicas constituíam, pois, uma unidade indissolúvel,
representada e reproduzida em formas rituais tanto do pensamento quanto
da atividade e das relações sociais. Por isso, nos tempos remotos, a
"intelligentsia" funcional e a "intelligentsia" reflexiva
(ou, em termos sociológicos, as elites funcionais e as elites reflexivas) eram
absolutamente idênticas (reis-deuses, monarcas-sacerdotes). Só relativamente
tarde separaram-se função e reflexão em esferas distintas. Instalou-se com isso
o germe de um conflito que a princípio, no entanto, só se manifestou
esporadicamente (por exemplo, na "querela das investiduras" entre o
imperador e o papa na Idade Média), sem exceder uma disputa hierárquica dentro
de uma ordem universalmente partilhada.
À medida que o pensamento reflexivo nessas sociedades
libertava-se dos severos rituais religiosos (como na filosofia antiga e
medieval), voltou-se ele ou diretamente para a natureza _em sua origem, aliás,
a ciência natural era parte integrante da filosofia_ ou para o ser humano como
um ser "seminatural". Como a forma e a
ordem sociais não podiam, como tais, estar à disposição, a reflexão
"sobre" o homem social cingiu-se basicamente a dois temas.
Primeiro, à "ética", a doutrina das
"virtudes" e da conduta moralmente correta, que forneceria ao homem
um padrão de seu comportamento, sem discutir criticamente os "fundamentos
últimos" da sociedade. Para essa metafísica, o nexo de
suas noções normativas e as formas socioeconômicas permaneceram às
escuras; ela visou sempre ao homem isolado, claro que não ainda ao indivíduo
abstrato "tout court",
mas ao homem em sua determinação socialmente "petrificada" _no fundo,
tratava-se de uma reunião exclusiva de "homens com poder de mando": o
destinatário (e portanto "o homem") era em geral o "pater familias" proprietário
de terras.
Em segundo lugar, a reflexão filosófica com os mesmos
destinatários desenvolveu, ao lado da "ética", uma doutrina da
"vida boa", da "felicidade" do homem no interior de uma
ordem pressuposta sem discussão. Essa filosofia da "arte de viver"
ocupava-se, por exemplo, com diversas formas de prazer, com a relação entre
prazer e abstinência (Diógenes!) etc.; e, em último recurso, com a questão do
que constitui uma "vida bem-sucedida". Esse aspecto da filosofia
antiga tinha em mente "estetizar" a
existência, cujo nexo com as relações socioeconômicas permaneceu tão obscuro
como na "ética" metafísica. Tornar a si próprio, a própria vida, uma
"obra de arte", sem abarcar com a vista o conjunto da sociedade e, ao
mesmo tempo, seguir o quanto possível uma doutrina normativa da conduta, nisso
se esgotava o caráter social desse pensamento.
"Feedback" cibernético
Só na modernidade teve início a
batalha pela forma social propriamente dita e surgiu pela primeira vez uma
"crítica social", uma consciência de formações socioeconômicas, de
crise e transformação da sociedade. Porém essa nova espécie de reflexão não fez
com que a sociedade alcançasse consciência crítica de si mesma. Ao contrário,
tratava-se apenas de dar um contorno intelectual a uma dinâmica cega liberada
pelas injunções da moderna revolução econômica.
Nessa inversão, a forma abstrata do dinheiro, até
então um fenômeno marginal e delimitado da sociedade, sofreu um processo de
"feedback" cibernético: a vida social foi submetida ao movimento de
valorização do dinheiro, movimento que se tornou um fim abstrato em si mesmo.
Na medida em que somente dava expressão a esse processo cego, o novo pensamento
reflexivo, tal como o pensamento anterior, permanecia preso à metafísica,
embora a uma metafísica secularizada, então liberta da religião: em vez da
metafísica celeste de um cosmos divino, a metafísica mundana do dinheiro sem
freios.
Mas a metafísica, a exemplo de seu fundamento social,
não foi apenas secularizada, foi também dinamizada. Os conceitos de revolução,
de processo, de movimento etc. já apontam para a diferença decisiva dessa nova
sociedade moderna em relação à anterior: ela não apenas cindiu-se da velha
ordem, como também não podia continuar a mesma, não podia repousar sobre si
própria como as antigas civilizações agrárias e religiosas. Desde o berço, ela
está em contradição consigo mesma, pois o processo de valorização do dinheiro é
insaciável e reproduz-se em formas sempre novas, em estágios evolutivos cada
vez mais elevados.
A máquina cibernética do dinheiro, agora um
"princípio motor", transforma a sociedade num projétil que se desloca
num tempo linear. Em conformidade a isso, o novo pensamento de "crítica
social" inventa a história linear e o progresso, o olhar voltado para o
futuro e a crítica de cada situação alcançada como mero estágio transitório
para uma respectiva situação nova e supostamente "superior". Só nesse
contexto contrapõem-se, de maneira sistemática e estrutural, a
"intelligentsia" funcional e a "intelligentsia" reflexiva,
já que a reflexão secularizada assume o papel de crítica progressista em
relação ao "funcionamento" que se prende a um respectivo estágio
evolutivo.
Mas essa crítica sempre permaneceu apegada à moderna
metafísica do dinheiro; ela não foi mais que a expressão
intelectual da contradição interna da sociedade moderna consigo mesma.
Foram criticadas não as formas básicas da sociedade como tal, mas somente a sua
respectiva insuficiência e "subdesenvolvimento". Por um lado, a
crítica social ocupou-se ainda por um bom tempo com a crescente dissolução dos
laços que a ligavam à antiga ordem agrária e religiosa; por outro, ela refletiu
sobre o processo dinâmico da nova ordem propriamente dita e proclamou, nesse
sentido, a meta do "desenvolvimento".
Teoria desarmada
Isso vale também para o marxismo. Marx, é verdade,
foi o único teórico moderno a desenvolver rudimentos de uma crítica radical da
modernidade, ou seja, uma reflexão "sobre" a metafísica do dinheiro.
Mas esse pensamento não foi capaz de sustentar-se. Enquanto avançava o desenvolvimento
dinâmico do sistema social moderno, só se tinha olhos
para "o que viria a seguir". Objeto de disputa teórica era a fase
seguinte do "desenvolvimento", não o princípio metafísico, a essência
ou a lógica desse "desenvolvimento".
Ao que parece, a situação modificou-se radicalmente
no final do século 20. Depois de o conceito de desenvolvimento ter perdido há
muito o seu fascínio, agora é a própria teoria crítica da sociedade que é vista
como obsoleta, não só a marxista, mas a teoria em geral. Seja como for, a
pós-modernidade envolveu tudo o que na história da modernização até hoje foi
tido como teoria com a suspeita de um "propósito totalitário" das
chamadas "grandes narrativas" ou "grandes teorias". Não se
quer mais considerar o conjunto da sociedade e por isso repudiam-se
"grandes conceitos" em troca do conforto da
"indeterminação" teórica. A teoria crítica é substituída pelo jogo
intelectual descompromissado.
De onde vem essa surpreendente guinada, esse
"desarmamento da teoria"? Impõe-se a suspeita de que a reflexão
teórica calou-se porque a dinâmica social a ela subjacente extinguiu-se. Em
escala planetária, não há mais sociedade tradicional da qual se possa
desfazer-se. E parece que também não há mais "lugar" para um novo
estágio de desenvolvimento social no interior da modernidade, porque o processo
de valorização econômica começa a esgotar-se. O processo segue adiante, mas
somente como processo negativo, como processo de crise que não pode mais ser
preenchido por esperanças positivas.
O desenvolvimento técnico é incompatível com a
moderna metafísica do dinheiro. Mas desse nível de reflexão o moderno
pensamento metafísico recua amedrontado, porque senão teria de superar os seus
próprios limites. Bem no momento em que o totalitarismo do dinheiro domina como
nunca a realidade, a própria teoria social é denunciada como totalitária em
seus propósitos.
Ela cumpriu o seu dever, mas agora deve deixar em paz
o conjunto social justamente em meio à crise. A real
contradição social, que no atual estágio não é mais contornável, deve
simplesmente ser banida do pensamento. O sombrio desfecho do desenvolvimento
moderno é absurdamente festejado como transição para um "pragmatismo livre
de ilusões". Junto com a crítica social, é o pensamento reflexivo que
chega ao fim.
A "intelligentsia" reflexiva desaparece.
Mas a "intelligentsia" funcional não triunfou, só está órfã. Embora
ela tenha sido exposta à crítica pela reflexão teórica, também sempre extraiu
dela novos rumos e legitimação, e o fim de seu antípoda estrutural levará a sua
própria crise. As elites funcionais giram em falso, o seu funcionamento não é
mais capaz de conter a crise da realidade e redunda no grotesco. Mas isso não
salta aos olhos, porque também a consciência cotidiana acha-se num estágio totalmente
irreflexivo. A famigerada capacidade do indivíduo moderno de refletir sobre si
próprio, de "sair de sua própria pele" e contemplar como que de fora
suas próprias ações esvai-se a olhos vistos. Uma tal capacidade desaparece
porque estava presa ao desenvolvimento positivo da sociedade moderna.
Justamente em seu fim, essa sociedade ficou
inquietantemente idêntica a si mesma. As gerações pós-modernas já não
compreendem os conceitos de reflexão, que em poucos anos lhes passou a soar tão
alheio quanto o culto aos mortos do antigo Egito. Elas são o que são e mais
nada. São perfeitamente idênticas a seus atos banais, quanto mais absurdos
forem esses atos.
A crise da realidade é recalcada pela
pós-modernidade, uma vez que ela tenta substituir a crítica social por uma
simulada reciclagem da consciência pré-moderna: a filosofia desarmada pode
tornar com toda a candura aos paradigmas da "ética" e da "arte
de viver". Mas ela esquece que os pressupostos sociais desse pensamento
deixaram de existir.
Auto-esteticismo
O pensamento pré-moderno acrítico só era possível sob
a condição de que a sociedade repousasse estaticamente sobre si mesma e o
pensamento reflexivo se reportasse, não ao vazio, mas a uma ordem divina. Não
há mais volta a essa condição. Em seu estado terminal, o sistema moderno
torna-se, pois, a primeira sociedade totalmente sem reflexão da história. Junto
com a capacidade de auto-reflexão, ela perde também uma condição básica da
existência humana.
Uma sociedade que somente funciona não é mais humana
e acaba por não ser mais capaz de funcionar. Num movimento
frívolo, que perdeu todo sentido e objetivo transcendentes, o pensamento
normativo da "ética" cai no vazio, pois não está mais lastreado em
nada. E a filosofia da "vida bem-sucedida", do indivíduo como
"obra de arte" de si mesmo, vira uma triste farsa, porque ignora a
crise da metafísica moderna. Ela proclama-se pensamento
"pós-metafísico", embora a verdadeira metafísica social da
modernidade permaneça inviolada. O auto-esteticismo
pós-moderno desdobra-se numa casa em chamas.
Robert Kurz é
sociólogo e ensaísta alemão; publicou no Brasil, entre outros, ''O Colapso da
Modernização'' e ''A Volta do Potenkim'' (Paz e
Terra); é co-editor da revista ''Krisis''; ele
escreve uma vez por mês na série ''Autores'' da Folha.
Tradução de José Marcos Macedo.